Wednesday, March 07, 2001

sempre tive uma relação íntima com o Livro. minha mãe, outra apaixonada por Ele, me ofereceu desde meus primeiros anos o encantamento daquelas letrinhas. minhas bonecas formavam-se a partir delas; érico veríssimo me levando ao castelo encantado de rosa maria; andersen, seus (tradicionais e necessários) contos e eu brincamos muito de patinho feio, pequena sereia, soldadinho de chumbo... eu e o Livro crescendo juntinhos, naquele mundo fantástico e tão meu, tão verdadeiro.

vem a primeira lágrima por letras, letras de ziraldo. aquele mundo de imaginação pueril sem horizontes (e certo desapego a brinquedos convencionais) quase me convenciam que eu vivia em total maluquice. menino maluquinho me conforta com sua estória; não, ele não tinha sido um menino maluquinho; ele tinha sido um menino feliz.

Logo mais, encontro a amiga de meus sonhos: mafalda, de quino. tiras e tiras e tiras, mais que paixão – um pequeno vício. me alegrava entender o que as crianças entendem. tempos depois, alegria revigorada por entender o que os anos permitem entender.

decidi escrever. cadernos, muitos cadernos e muita criatividade para preencher as folhas com desenhos detalhados e histórias mirabolantes. meu mundinho virtual me fazia feliz, mesmo que não compartilhado.

quatorze anos, pedi um tempo ao Livro. apenas errar, sofrer e viver razoavelmente para aprender a entendê-Lo melhor. bons leitores – assim como bons escritores – não são formados apenas por leitura, mas também por vivência, desatinos, conclusões empíricas.

a saudade não tardou. nossa união voltou aliada à alegria de nos entendermos melhor. hoje me regozijo de ter aprendido a sonhar com érico, ziraldo, Andersen e tantos outros. não fosse por isso, machado e eça nada mais seriam que leituras obrigatórias, e fernando pessoa seria apenas mais qualquer pessoa. livrarias não ligariam meu botãozinho mais capitalista e a rotina já teria há muito me absorvido. o que quero? quero ainda gotas de andersen, como é definido por otto maria carpeaux: “coração de criança perdida entre os adultos”.

[memorial, relativo ao primeiro npc, dois mil e um]